Guardião da Memória Ipeana

Para o Sr. Péricles Nicola Bertoni, o IPÊ Clube não é apenas uma agremiação esportiva, mas o cenário onde a história da sua vida e da sua família se entrelaçou com o desenvolvimento da Vila Clementino. Admitido como associado há 75 anos por influência de amigos do colégio Caetano de Campos, ele testemunhou a transformação de um clube estritamente familiar em uma infraestrutura moderna e completa. Péricles personifica a “velha guarda” que viu o advento do futebol de salão no Brasil passar pelas quadras do clube e que, entre cargos de diretoria e peraltices de juventude, ajudou a construir a identidade de uma das instituições mais tradicionais de São Paulo. Sua narrativa é um resgate nostálgico de uma época em que o convívio social prevalecia sobre a tecnologia, e o compromisso com o clube era selado em piqueniques e jogos de futebol à fantasia no Carnaval.

Conte-nos como você chegou ao IPÊ e quais eram os atrativos na época para atrair novos associados.

Eu comecei há 75 anos, quando estudava no Caetano de Campos e meus amigos Otto e Marcelo me incentivaram a entrar. Naquela época, o clube era muito selecionado; meu pai entrou por título familiar e os novos sócios passavam por uma avaliação do conselho com bolas pretas e brancas. O grande atrativo para mim era o esporte, principalmente o futebol, mas o IPÊ também atraía a elite da época, como o radialista Blota Júnior e sua esposa, que jogavam tênis.

Quais eram as suas principais atividades esportivas no clube e como foi a sua trajetória nas modalidades?

Eu sempre fui um esportista e joguei de tudo. Comecei no futebol juvenil, que era muito forte na Vila Clementino. Participei ativamente da chegada do futebol de salão ao Brasil através dos professores da ACM; nosso time foi vice-campeão do primeiro torneio do Triângulo Vermelho jogando com bolas de quase um quilo. Também joguei basquete e vôlei, chegando a ser levado pelo Mário de Stéfano para o Tênis Clube. Mais tarde, dediquei-me ao tamboréu, onde cheguei à classe A e fui diretor de esportes durante o tricampeonato da modalidade.

Além de praticar esportes, quais eram outras atividades que o senhor costumava fazer no IPÊ?

Éramos um grupo muito unido de jovens e participávamos intensamente da vida social e política. Fui da Comissão Social e ajudei a trazer a Celly Campello para arrecadar fundos para a piscina. Também fui conselheiro muito jovem e brigava muito por melhorias. Eu até escrevia um “pasquinzinho” contando histórias do clube com humor. Lembro-me com carinho das festas juninas na Vila Mariana, onde fazíamos piqueniques e cuidávamos da barraca italiana.

O senhor viveu muitas histórias curiosas aqui. Pode partilhar alguma conosco?

Tive muitas passagens marcantes, como quando empurrei o Dr. José Dias da Silveira na piscina durante a inauguração, pois todos achavam que eu faria isso. Outra vez, após sermos suspensos por jogar contra o Banespa sem autorização, espalhei cem cartazes de protesto pelo clube durante a noite. Também salvei a vida de um rapaz que foi eletrocutado na piscina, fazendo massagem cardíaca após o Manolo desligar a tomada; anos depois, reencontrei-o em Cabo Frio e ele me agradeceu.

Além do senhor, quem mais da sua família frequentava o clube?

Minha família toda participou. Meu pai jogava bocha, minha irmã fazia hidroginástica e meus filhos são sócios até hoje, embora morem fora. Minha mãe, Rosina Bertoni, foi um ícone; jogou tênis até os 84 anos e organizava anualmente um torneio que levava o seu nome para incentivar as mulheres e a molecada. Minha esposa também é sócia vitalícia, embora tenha se dedicado mais à carreira na educação.

Como você descreve a evolução da infraestrutura e do quadro associativo do IPÊ?

O clube evoluiu maravilhosamente em termos de estrutura, tornando-se um centro esportivo completo. No entanto, sinto que o espírito familiar mudou. Quando os títulos passaram a ser individuais, o clube virou um pouco uma “academia”. A tecnologia e os aplicativos de marcação de jogos acabaram com aquele convívio espontâneo de antigamente. Hoje o jovem prefere o celular ao esporte, e o clube perdeu muito daquele movimento vibrante que tínhamos aos sábados.

O que o senhor deseja para o clube para os próximos anos?

Fiquei muito feliz com a renovação do comodato e com a nova diretoria cheia de jovens. O que eu mais quero é que a nossa história seja perpetuada. Desejo que os novos sócios reconheçam o sacrifício que a “velha guarda” fez para construir o que temos hoje. O IPÊ precisa continuar sendo um lugar de união e bons momentos, como os jantares de quarta-feira e as confraternizações que sempre marcaram a nossa vida.

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