O primeiro passo na carreira artística

Antes dos palcos consagrados, das câmeras de cinema e da televisão, toda trajetória artística nasce em algum lugar de descoberta, experimentação e acolhimento. Para os atores Emílio Orciollo Netto e Graziella Moretto, esse lugar tem nome, memória e afeto: o Ipê Clube. Foi ali, em meio a quadras esportivas, carnavais, festivais culturais e grupos teatrais amadores, que ambos deram os primeiros passos no universo das artes cênicas, construindo não apenas uma formação artística, mas também uma base humana que os acompanha até hoje. 

Emílio Orciollo Netto iniciou sua trajetória no teatro ainda adolescente, aos 15 anos, integrando o grupo de teatro amador do clube, sob a direção de Mirtes Mesquita. O convite veio de forma natural, a partir das relações construídas no próprio Ipê, onde o esporte e a convivência faziam parte de sua rotina. “Eu comecei a fazer teatro no IPÊ, no grupo de teatro amador do IPÊ Clube, em 1989. Foi ali que eu comecei realmente a ter o amor pela arte, especialmente pelo teatro, e ver que ali era o início do meu caminho na profissão de ator”, relembra.

O ambiente do clube oferecia segurança, acolhimento e incentivo — elementos essenciais para quem estava começando. Emílio recorda que a receptividade dos colegas mais experientes e da diretora foi decisivo para que ele se sentisse confiante para arriscar. Logo no primeiro ano, veio o reconhecimento: o prêmio de Ator Revelação no Festival de Teatro Amador, com a peça Lisístrata – A Greve do Sexo. “Eu me senti muito confiante. Foi muito prazeroso poder estar num ambiente que era o do meu clube, dos sócios, e onde eu comecei a construir meu caminho como ator”, conta.

Entre as lembranças mais marcantes, Emílio guarda com carinho a conversa nos bastidores antes de sua primeira estreia. Nervoso, perguntou a um ator mais experiente se o frio na barriga passava com o tempo. A resposta se tornou um ensinamento para a vida inteira: “A gente fica nervoso sempre. Não importa a experiência. O frio na barriga é o mesmo. Isso te deixa vivo”. Hoje, com mais de O primeiro passo na carreira artística três décadas de carreira, ele reconhece que aquele aprendizado segue atual e essencial.

A trajetória de Graziella Moretto também se entrelaça profundamente com a história cultural do Ipê Clube, desde a infância. Filha de uma família criativa e artisticamente ativa, ela cresceu frequentando o clube, participando de atividades culturais, esportivas e artísticas que despertaram, desde cedo, sua sensibilidade para o palco. “O IPÊ foi fundamental na minha introdução no mundo das artes. Toda a minha experiência ali sempre esteve ligada à parte cultural e artística”, afirma.

Para Graziella, o contato com o teatro começou antes mesmo das aulas formais, nas experiências lúdicas do carnaval, nas fantasias elaboradas pela mãe, nas apresentações de dança e nos festivais culturais. “O carnaval era uma experiência artística. Era o lúdico da fantasia, da criação de personagens, da expressividade”, relembra. As aulas de ballet, jazz e dança, somadas às apresentações no Salão Nobre, foram moldando sua relação com o palco e com a criação artística.

A entrada no grupo de teatro do Ipê consolidou esse caminho. Graziella atuou com diferentes diretores e participou de um período que ela define como fundamental para a consolidação do grupo teatral do clube, sempre marcado pela abertura, diversidade e renovação constante. “Os espetáculos do Ipê tinham uma qualidade técnica muito alta, refletiam o que já existia no mercado profissional”, destaca. Um dos momentos mais emblemáticos foi a participação no Festival de Teatro Amador da cidade de São Paulo, com apresentação no histórico Teatro Caetano de Campos. “Foi uma experiência extraordinária. Estar em um teatro icônico, onde grandes nomes se apresentaram, foi algo que guardo com muito orgulho.”

Ambos os atores reconhecem que os grupos de teatro amador tiveram papel decisivo não apenas na formação artística, mas no desenvolvimento pessoal. Emílio destaca o teatro como um espaço de experimentação protegido, essencial em uma época em que a formação precedia a exposição midiática. Já Graziella amplia essa visão ao enxergar o teatro como prática transformadora para qualquer pessoa, independentemente de seguir ou não carreira artística. “O teatro é um jogo, uma brincadeira, uma forma de resgatar a criança interior, de experimentar emoções, de se permitir sem julgamento”, reflete.

As histórias de Emílio Orciollo Netto e Graziella Moretto revelam que grandes trajetórias não nascem apenas do talento individual, mas de ambientes que estimulam, acolhem e oferecem espaço para o encontro, a criação e a descoberta. No caso deles, o Ipê Clube foi mais do que um cenário: foi solo fértil onde arte, convivência e afeto se transformaram em vocação, profissão e legado.

 

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